A guerra do Vietname continua a trazer inúmeros manifestantes às ruas de Washington, enquanto as lutas raciais nas principais cidades de vários estados aquecem as ruas com sangue. Cresce o medo da ameaça soviética e o país encontra-se numa louca corrida espacial, provocando pela primeira vez baixas humanas com o acidente da Apollo 1. Subitamente duas estranhas mas importantes notícias emergem através do New York Times: o exército americano encontra-se a conduzir experiências secretas do foro biológico e o Dr. James Bedford torna-se no primeiro indivíduo a ser criogenicamente preservado com intenções de ser ressuscitado num futuro ainda desconhecido.
Fruto disto tudo, nasce aquele que seria conhecido para a história como o filme que fez "renascer dos mortos" o interesse do público por zombies - "Night of the Living Dead".

Nunca se referindo à cultura do voodoo e aos seus zombies, antes preferindo o termo "living dead" ou "ghouls", George A. Romero criara um filme de baixo orçamento, a preto e branco, com uma mensagem muito própria dos tempos em que se viviam (isto para quem se preze a apreciar este género tantas vezes mal tratado).
Na verdade, Romero nunca negou que a fonte principal de inspiração da sua obra havia sido, nada mais nada menos, do que o livro de Richard Matheson, I Am Legend, o qual retrata a luta do último sobrevivente humano num mundo arrasado por mutações vampirescas. Acontece, que tal como na história original, os tempos de então eram os de uma constante revolução (social, política e até científica), e isto poderia proporcionar, assim por dizer, um bom ponto de partida para ajudar esta equipa, farta de fazer anúncios televisivos, a preencher uma lacuna na indústria cinematográfica e a satisfazer tanto os seus desejos de "fuga" como os dum público sedento por algo mais bizarro.

John Russo e George Romero decidiram então que era tempo de recriar o primeiro momento nesta viagem apocalíptica, ou seja, onde tudo realmente começou - a primeira noite. Contudo não querendo utilizar as mesmas criaturas que no enredo original, começaram a procurar outra ameaça... "E se os mortos não estivessem mais mortos?".
Esta ideia facilmente se veria a desenvolver num guião... A primeira versão emergiu num tom mais cómico e com o título "Monster Flick", seguindo-se outra logo de seguida, mas num tom mais dramático, como o nome "Night of the Flesh Eaters".
Para quem conhece o filme, não será necessário dizer que mesmo durante as filmagens em Evans City, Pensilvânia, o guião final ainda não tinha um nome exacto, e muitas mais modificações teriam lugar devido à participação activa dos actores e ao livre improviso a que tiveram direito (algo bastante palpável durante a cena em que Barbra revela a Ben o que ocorreu ao seu irmão Jonnhy). Mas então falemos melhor da história para quem não a conhece bem...

Algures numa pequena povoação da Pensilvânia, Barbra (Judith O'Dea) e o seu irmão Johnny (Russell Streiner) viajam até ao cemitério local para visitar a campa de seu pai, quando ao entardecer são atacados por um estranho e pálido homem. Barbra consegue refugiar-se numa velha casa das proximidades, mas quando se apercebe da terrível realidade que terá que enfrentar sozinha entra num estado catatónico. Para sua sorte, surge Ben (Duane Jones), um homem que também havia sido atacado na estrada momentos antes, e tenta protegê-la perante o aglomerado de mortos vivos que se aproxima apenas com o intuito de se alimentar dos vivos. Ironicamente, é dentro da cave que existe a derradeira ameaça.
De certa forma Romero focou o efeito de um desastre nacional numa só casa, explorando e focando a história nas fraquezas humanas de cada personagem escondida na casa. Algo inevitável de também se analisar é obviamente as mensagens nas entrelinhas feitas à sociedade americana e às guerras por ela gerada, sobretudo com a cena final. Contudo é importante realçar que para o nosso herói trágico, Ben, nunca havia sido estipulada a cor da pele sendo o casting aberto a todas as etnias. A escolha de Duane Jones para o papel revelaria então o primeiro herói afro-americano no género de terror.
"It never occurred to me that I was hired because I was black. But it did occur to me that because I was black it would give a different historic element to the film." Duane Jones
ver filme original aqui.
Tal como a sabedoria popular diz : "Não é dos mortos que se tem que ter medo..."
P.S. Segundo George A. Romero "Night of the Living Dead" é apenas o primeiro capítulo da sua trilogia, seguindo-se "Dawn of the Dead" (1978) e "Day of the Dead" (1985). "Land of the Dead" (2005), "Diary of the Dead" (2007) e "Survival of the Dead" (2009) podem ser considerados capítulos independentes de uma outra explicação ou rumo, não estando portanto directamente ligados à trilogia original.
P.S.S. Existe no entanto uma versão escrita por John Russo e realizada por Dan O'Bannon de nome "Return of the Living Dead" (1985) como uma linha de continuidade alternativa ao filme original, mas segundo uma abordagem cómica ou satírica (tal como Russo havia pretendido desde o ínicio). Escusado será dizer que Romero não aceita tal obra como parte do universo criado por ele.
País de Origem : Estados Unidos da América
Ano : 1968
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